QUALÉ RESEARCH
Economia dos Criadores no Brasil
Trabalho, plataformas, renda e invisibilidade institucional
Por Carlo Manfroi: Doutorando em Engenharia, Gestão e Mídia do Conhecimento (PPGEGC/UFSC – CAPES), integrante do Lemme Lab e Creative Strategist na Qualé Digital e no Carlo Manfroi Story Studio. Realização: Qualé Digital.
Apresentação
Este estudo analisa a economia dos criadores, ou creator economy, como um ecossistema formado por pessoas, plataformas digitais, marcas, agências, ferramentas tecnológicas, comunidades e modelos de negócio baseados na produção e na circulação de conteúdo.
O objetivo é situar esse ecossistema em diferentes contextos internacionais e aprofundar suas características no Brasil, com atenção a quatro dimensões. A dimensão econômica, relacionada às formas de geração e distribuição de receita. A dimensão profissional, envolvendo a transformação do criador em trabalhador autônomo, empreendedor ou prestador de serviços. A dimensão institucional, marcada pelas dificuldades de classificação, formalização e representação da atividade. A dimensão social, associada à precarização, à exposição permanente e à transferência de riscos das plataformas e das marcas para os próprios criadores.
A pesquisa combina literatura acadêmica sobre trabalho digital, economia de plataformas e trabalho criativo com relatórios setoriais, documentos institucionais e dados públicos. Como as fontes utilizam definições e metodologias diferentes, os números apresentados não devem ser tratados como medidas diretamente comparáveis. O estudo, portanto, não pretende oferecer uma cifra única para o setor, mas organizar evidências e problemas que ajudem a compreender sua formação e seus efeitos.
No Brasil, o ecossistema ligado ao YouTube contribuiu com mais de R$ 6 bilhões para o Produto Interno Bruto em 2025 e apoiou mais de 150 mil empregos equivalentes em tempo integral, segundo relatório elaborado pela Oxford Economics para a plataforma. Esses números abrangem não apenas a receita direta dos criadores, mas também atividades associadas, como empresas, profissionais, fornecedores e consumo gerado pelo ecossistema.
O crescimento econômico, contudo, não elimina a instabilidade do trabalho. A literatura sobre trabalho criativo em redes sociais mostra que a busca por visibilidade é atravessada por incertezas relacionadas ao comportamento do público, às exigências dos anunciantes, à concorrência entre plataformas e às mudanças em produtos e algoritmos. Em vez de uma trajetória linear de ascensão, muitos criadores enfrentam um mercado marcado por desigualdade, competição intensa e dependência de regras que não controlam, como descrevem Duffy, Pinch, Sannon e Sawey (2021).
Este texto é uma revisão analítica com o propósito de reunir conceitos, dados e questões relevantes para pesquisadores, profissionais de comunicação, marcas, agências, criadores e formuladores de políticas públicas.
No Brasil, o termo “economia dos criadores” é usado como tradução de creator economy, mas não há consenso absoluto. Parte do mercado prefere “economia da criação de conteúdo”, “mercado de influenciadores” ou simplesmente “mercado de criadores”. Este estudo adota “economia dos criadores” por ser a expressão mais próxima da literatura internacional, sem desprezar as variações locais.
1 – O que é a economia dos criadores
A economia dos criadores compreende as atividades econômicas baseadas na produção, distribuição e monetização de conteúdo por indivíduos ou pequenos grupos, geralmente com o apoio de plataformas digitais. Esse ecossistema inclui receitas de publicidade, contratos com marcas, assinaturas, doações, comércio eletrônico, produtos digitais, serviços, eventos e licenciamento.
Nem todo criador é influenciador e nem todo influenciador depende exclusivamente de publicidade. Por isso, é importante diferenciar:
– Criador de conteúdo.
– Influenciador digital.
– Profissional multimídia.
– Empreendedor criativo.
– Produtor audiovisual.
– Prestador de serviços para marcas.
– Pessoa que publica conteúdo sem objetivo de monetização.
2 – Como o mercado gera receita
| Fonte de receita | Como funciona |
| Publicidade e participação em receita | A plataforma divide receitas de anúncios ou oferece programas próprios de monetização. |
| Contratos com marcas | O criador produz conteúdo patrocinado, participa de campanhas ou licencia sua imagem. |
| Assinaturas e apoio direto | A audiência paga por acesso, benefícios, comunidades ou conteúdos exclusivos. |
| Produtos e comércio | O criador vende produtos físicos, cursos, livros, eventos ou outros produtos digitais. |
| Serviços profissionais | A autoridade construída no ambiente digital é convertida em consultorias, palestras, produção e treinamento. |
| Afiliados | O criador recebe comissão por vendas ou conversões geradas a partir de links e códigos. |
| Licenciamento e propriedade intelectual | Personagens, formatos, marcas, obras e conteúdos são licenciados para terceiros. |
A diversificação de fontes de receita pode reduzir a dependência de uma única plataforma ou anunciante, mas não representa garantia de sustentabilidade. Ela também pode aumentar a carga de trabalho, a complexidade administrativa e a necessidade de investimento. Por isso, a tabela acima deve ser lida como um mapa de possibilidades, e não como um roteiro obrigatório para todo criador.
3 – Trabalho, visibilidade e precarização
Segundo a pesquisa de Duffy, Pinch, Sannon e Sawey, baseada em entrevistas com criadores de diferentes plataformas, há uma precariedade em camadas neste segmento de atuação. A instabilidade aparece no mercado, nas relações com anunciantes e concorrentes, na própria ecologia das plataformas e nas mudanças dos recursos e algoritmos.
A expressão “hope labor”, ou trabalho orientado pela expectativa, está relacionada a atividades realizadas com baixa ou nenhuma remuneração imediata, sustentadas pela expectativa de reconhecimento, oportunidades futuras ou crescimento de audiência.
A economia dos criadores combina autonomia aparente com mecanismos de controle pouco visíveis. O criador escolhe temas, formatos e horários, mas seu alcance depende de métricas, políticas de moderação, recursos técnicos e decisões algorítmicas das plataformas. Como resultado, parte do controle do trabalho é transferida para indicadores de desempenho, como visualizações, retenção, engajamento e conversões.
Estudos sobre trabalho em plataformas também mostram que a classificação formal do trabalhador não é suficiente para compreender a precarização. É necessário observar quem controla o acesso ao mercado, quem define as regras, quem assume os custos e quem captura o valor produzido, como propõem Schor et al. (2020).
4 – O caso brasileiro
Segundo o relatório de impacto econômico produzido pela Oxford Economics para o YouTube, o ecossistema da plataforma contribuiu com mais de R$ 6 bilhões para o PIB brasileiro em 2025 e apoiou mais de 150 mil empregos equivalentes em tempo integral. O cálculo inclui efeitos diretos, indiretos e induzidos. Por se tratar de uma estimativa encomendada pela própria plataforma, o dado deve ser lido em conjunto com a metodologia do relatório e não como uma medida de toda a economia dos criadores no país.
Não existe, na lista oficial de ocupações permitidas ao MEI, uma ocupação específica denominada “criador de conteúdo” ou “influenciador digital”. O enquadramento depende da atividade efetivamente realizada e pode envolver códigos diferentes, conforme o serviço prestado. A própria lista oficial do governo informa que cada ocupação permitida está associada a um código CNAE.
CNAE, ocupação permitida ao MEI e profissão regulamentada são conceitos diferentes entre si. A ausência de uma ocupação específica no MEI não significa necessariamente que a atividade não possa ser formalizada por outros regimes empresariais ou códigos de atividade.
Além disso, houve mudança recente no debate jurídico brasileiro. A Lei nº 15.325, de 6 de janeiro de 2026, dispõe sobre o exercício da profissão de multimídia e reconhece como profissional de multimídia quem atua de forma habitual ou profissional em criação, produção, edição e veiculação de conteúdo em múltiplos formatos digitais, inclusive com finalidade publicitária, informativa, educativa ou de entretenimento. O texto oficial define o profissional multimídia como trabalhador de nível superior ou técnico, apto a exercer atividades em áreas de criação, produção, captação, edição, planejamento, gestão, organização, programação, publicação, disseminação ou distribuição de conteúdos de sons, imagens, animações, vídeos e textos em diferentes mídias eletrônicas e digitais.
A lei não cria a “profissão de influenciador” como categoria autônoma, mas permite enquadrar o influenciador digital como espécie do gênero profissional multimídia, conforme o art. 3º, II. Esse enquadramento tem caráter essencialmente organizacional e conceitual, não trabalhista, de modo que não cria vínculo de emprego nem altera os critérios do art. 3º da CLT, conforme análises publicadas no Migalhas e no Poder360.
5 – Comparação internacional
Para traçar um comparativo com outros países, trabalhamos com quatro dimensões comuns:
| Dimensão | Pergunta de análise |
| Mercado | Quais são as principais fontes de receita? |
| Trabalho | Como o criador é classificado e remunerado? |
| Regulação | Há reconhecimento profissional ou proteção específica? |
| Plataformas | Quem controla a distribuição, a monetização e os dados? |
As dimensões variam conforme o país. Os casos a seguir ilustram respostas institucionais distintas para tensões semelhantes:
- China: O país é sede de plataformas como TikTok (Douyin) e Kuaishou, que operam sob regulação estatal e exigências de moderação de conteúdo mais rígidas do que no Ocidente. Em julho de 2024, o governo chinês reconheceu formalmente o online streamer como ocupação no catálogo nacional de profissões, avanço que sucede o reconhecimento do internet marketer, em 2020. Estudos sobre o setor documentam histórico de forte concentração de renda entre os criadores comerciais chineses, ainda que faltem dados recentes e comparáveis para descrever com precisão a distribuição atual (Cunningham; Craig; Lv, 2019).
- Reino Unido: Salamon (2026), em artigo na New Media & Society, descreve a marginalização regional de criadores que atuam fora dos grandes polos de mídia do país, concentrados em Londres. O argumento central é que o acesso a estúdios, contratos de marca e infraestrutura de produção permanece concentrado nos centros tradicionais da indústria criativa, o que penaliza criadores baseados em outras regiões e os leva a desenvolver estratégias próprias de resistência a essa desigualdade geográfica.
- Índia: Relatório da Boston Consulting Group (2025) estima entre 2 e 2,5 milhões de criadores digitais ativos no país, dos quais apenas 8% a 10% monetizam o conteúdo de forma efetiva. Ainda assim, o setor já gera entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões em receita direta, com projeção de crescer para US$ 100 a 125 bilhões até 2030, impulsionado pela diversidade linguística e pelo consumo de conteúdo hiperlocal em um país com mais de 800 milhões de usuários de internet. Apesar do surgimento de uma elite de creatrepreneurs, a maior parte dos criadores ainda depende de acordos pontuais e instáveis com marcas para monetizar a audiência (Praneeth; Tamizharasi, 2025).
- Estados Unidos: Maior mercado do mundo e origem da maior parte da literatura acadêmica citada neste estudo, o mercado americano é o mais maduro dos quatro casos. O IAB Creator Economy Report 2025 projeta US$ 37,1 bilhões em investimento de marcas em criadores no país em 2025, crescimento de 26% em relação ao ano anterior. Apesar da maturidade do mercado, a concentração de renda no topo da pirâmide segue como o principal problema identificado pela literatura, e é a base empírica da maior parte dos estudos sobre precarização e saúde mental usados neste dossiê.
A partir desse contexto global de assimetrias de poder e controle centralizado, os indicadores brasileiros de renda, saúde mental e trabalho são analisados a seguir.
Dados de renda
As pesquisas disponíveis indicam que a economia dos criadores é marcada por forte concentração de renda. No Brasil, a edição 2024 da pesquisa Creators & Negócios, realizada por YPX e Brunch, aponta que cerca de 50% dos criadores têm renda mensal de até R$ 5 mil, sendo a faixa de R$ 2.001 a R$ 5.000 a mais comum, e apenas 6% ultrapassam R$ 20 mil por mês. Já a pesquisa Influency.me + Opinion Box, com mais de 900 participantes ativos no universo de influencer marketing, mostra que 27,1% dos influenciadores recebem até R$ 500 por mês e 33,2% recebem entre R$ 500 e R$ 2.000, enquanto apenas 1,5% declaram renda acima de R$ 50.000 mensais.
No plano global, o NeoReach Creator Earnings Report 2025, baseado em mais de 3.000 criadores, indica que 50,71% ganham menos de US$ 15 mil por ano, reforçando o padrão de concentração de renda na base da pirâmide.
O Creator Economy Report da Influencer Marketing Factory, por sua vez, estima que 48,7% dos criadores ganham menos de US$ 10 mil anuais, 45,6% ficam entre US$ 10 mil e US$ 100 mil, e 5,7% atingem US$ 100 mil ou mais.
Esses números não são diretamente comparáveis, pois variam quanto ao período, à amostra, à definição de criador e ao escopo da atividade analisada. Ainda assim, apontam para um padrão recorrente de desigualdade na distribuição da renda.
Prazos de pagamento
Relatos recorrentes do mercado indicam que criadores podem enfrentar prazos extensos de pagamento e assimetria contratual, sobretudo em negociações com marcas e intermediários. A extensão e a frequência desse problema ainda exigem estudos sistemáticos no Brasil. Na ausência de pesquisas específicas, é mais adequado tratar o tema como hipótese de precarização contratual do que como dado consolidado.
Saúde mental
A exigência de publicação frequente, a exposição pública, a instabilidade de renda e a dependência de métricas podem produzir condições de trabalho associadas a estresse e esgotamento. Estudos recentes sobre saúde mental de criadores na América do Norte indicam que cerca de 62% relatam burnout, 65% enfrentam ansiedade ou depressão relacionada ao trabalho, e 1 em cada 10 afirma ter pensamentos suicidas ligados à atividade, segundo levantamentos publicados por Forbes, What’s Trending e Psychreg.
Esses estudos também identificam a “ansiedade algorítmica” como um estressor ocupacional quase universal, tratado como característica estrutural do ambiente de plataformas, e não como traço individual de personalidade. Criadores com renda anual abaixo de US$ 10 mil apresentam os menores níveis de afeto positivo, o que sugere uma relação entre precariedade econômica e sofrimento psíquico, segundo a mesma reportagem da Psychreg.
No Brasil, a magnitude desse problema entre criadores ainda precisa ser investigada por pesquisas específicas. Os dados internacionais, contudo, indicam que a saúde mental deve ser considerada como dimensão relevante da precarização na economia dos criadores.
Crianças e adolescentes
A participação de crianças e adolescentes na produção de conteúdo levanta questões específicas sobre consentimento, privacidade, remuneração, divisão dos rendimentos, exposição da imagem e limites entre atividade familiar, entretenimento e trabalho. O tema exige análise conjunta da legislação de proteção da infância, das normas de publicidade e das políticas das plataformas.
Considerações finais
A economia dos criadores já participa de cadeias relevantes de produção, publicidade, comércio, educação, entretenimento e serviços. Seu crescimento, porém, não significa que os criadores estejam distribuindo de maneira equilibrada o valor gerado pelo ecossistema.
O setor combina oportunidades de autonomia e expressão com incerteza de renda, dependência de plataformas, competição por visibilidade e transferência de custos para os trabalhadores. A plataforma pode oferecer ferramentas de publicação e monetização, mas também define regras de acesso, distribuição e remuneração que o criador não controla integralmente.
No Brasil, a discussão precisa avançar em pelo menos cinco frentes:
1 – Melhorar a produção de dados públicos sobre criadores, receitas, ocupações e condições de trabalho.
2 – Diferenciar formalização empresarial, enquadramento tributário, reconhecimento profissional e proteção trabalhista.
3 – Estabelecer relações contratuais mais transparentes entre criadores, marcas, agências e plataformas.
4 – Desenvolver pesquisas sobre desigualdade, gênero, raça, território, deficiência, idade e acesso a recursos no ecossistema.
5 – Ampliar a educação financeira, jurídica, empreendedora e tecnológica dos criadores.
A economia dos criadores não deve ser analisada apenas pelo número de seguidores, pelo alcance ou pelo volume de investimentos em publicidade. Também é necessário observar as condições sob as quais o trabalho é realizado, quem assume os riscos e como a renda é distribuída. Esse deslocamento de perspectiva permite compreender o setor sem tratá-lo apenas como tendência de mercado ou promessa de empreendedorismo individual.
APÊNDICE: NOTA METODOLÓGICA E FONTES
Metodologia de Revisão
Este estudo adota uma abordagem de revisão analítica baseada em literatura acadêmica, relatórios setoriais, documentos institucionais e dados públicos sobre a economia dos criadores. O objetivo não é produzir novas estimativas quantitativas, mas organizar, comparar e interpretar evidências já disponíveis, com atenção especial ao caso brasileiro.
Fontes e critérios de seleção
Foram priorizadas fontes que atendem a pelo menos um dos seguintes critérios: (i) origem acadêmica ou institucional; (ii) metodologia explícita de coleta e análise de dados; (iii) reconhecimento no campo de estudos sobre trabalho digital, plataformas e indústrias criativas; (iv) relevância para a compreensão do ecossistema de criadores no Brasil e no mundo.
A seleção incluiu:
Literatura acadêmica: sobre trabalho criativo, trabalho em plataformas e precarização, com ênfase em estudos que analisam a produção de conteúdo em redes sociais e a relação entre visibilidade, métricas e condições de trabalho, como Duffy, Pinch, Sannon e Sawey (2021) e Schor et al. (2020).
Literatura comparada internacional: estudos de caso sobre China, Reino Unido, Índia e Estados Unidos, usados para ilustrar diferentes respostas institucionais e de mercado às mesmas tensões estruturais descritas no caso brasileiro, incluindo Cunningham, Craig e Lv (2019) sobre live-streaming chinês, Salamon (2026) sobre marginalização regional de criadores no Reino Unido, e o relatório Mapping India’s Creator Economy, da Boston Consulting Group (2025), combinado com Praneeth e Tamizharasi (2025) sobre o mercado indiano, e o IAB Creator Economy Report 2025 sobre o mercado norte-americano.
Relatórios econômicos e setoriais: produzidos por instituições de pesquisa e consultoria, como o relatório de impacto econômico do YouTube elaborado pela Oxford Economics, que estima a contribuição da plataforma para o PIB e para o emprego no Brasil.
Pesquisas de mercado sobre renda e condições de trabalho de criadores e influenciadores, com destaque para:
– A pesquisa Creators & Negócios, realizada por YPX e Brunch, que traz distribuição de renda mensal e dependência da atividade como fonte principal de receita entre criadores no Brasil.
– A pesquisa anual Influency.me + Opinion Box sobre influencer marketing no Brasil, que reúne respostas de marcas, agências, assessores e influenciadores, incluindo faixas de renda mensal.
– O relatório SET Expo sobre a economia do criador, que apresenta faixas de renda de um público mais profissionalizado do setor.
– O NeoReach Creator Earnings Report, estudo global com amostra de milhares de criadores, que analisa a distribuição de renda anual e a situação de criadores que se declaram *full-time*.
– O Creator Economy Report da Influencer Marketing Factory, que oferece uma visão global da distribuição de renda entre criadores.
– Documentos oficiais e normativos, como a lista de ocupações permitidas ao MEI publicada pelo Portal Gov.br, utilizada para discutir a ausência de uma ocupação específica denominada “criador de conteúdo” ou “influenciador digital” e a relação entre ocupação, CNAE e formalização.
– Matérias jornalísticas e publicações setoriais que divulgam resultados dessas pesquisas, usadas como ponto de acesso e verificação cruzada, sempre que possível confrontadas com os documentos originais, como reportagens do Poder360 sobre a regulamentação da atividade.
Tratamento dos dados quantitativos
Os dados quantitativos sobre tamanho de mercado, renda e emprego foram tratados com as seguintes ressalvas:
- Incomparabilidade direta
As pesquisas utilizam definições distintas de “criador”, “influenciador” e “profissional do ecossistema”, além de amostras, recortes geográficos e períodos diferentes. Por isso, os números não foram somados, nem tratados como medidas equivalentes de um mesmo universo. - Distinção entre escopo global e nacional
Estimativas de mercado global, como as da Goldman Sachs e da Influencer Marketing Factory, foram usadas para contextualizar a magnitude do ecossistema, mas não para inferir valores específicos para o Brasil. Para o caso brasileiro, foram priorizadas as pesquisas Creators & Negócios, Influency.me + Opinion Box e o relatório da Oxford Economics sobre o YouTube no Brasil. - Renda mensal versus renda anual
As faixas de renda foram apresentadas conforme a unidade original de cada fonte (mensal ou anual), sem conversão automática entre moedas ou períodos. Quando necessário, o texto explicita a unidade e a moeda utilizada. - Fontes institucionais e conflitos de interesse
Relatórios produzidos ou financiados por plataformas, como o estudo da Oxford Economics encomendado pelo YouTube, foram utilizados como fontes institucionais e são apresentados com a indicação de sua origem. Esses documentos oferecem estimativas relevantes, mas não devem ser interpretados como retrato completo e independente de toda a economia dos criadores.
Abordagem conceitual
A análise conceitual apoia-se em três eixos:
– Trabalho e precarização em plataformas, com base em estudos que discutem a transferência de riscos, a dependência de métricas e a instabilidade associada à visibilidade online, como Duffy, Pinch, Sannon e Sawey (2021) e Schor et al. (2020).
– Economia de plataformas e captura de valor, considerando quem controla o acesso ao mercado, quem define as regras de distribuição e monetização e quem se apropria do valor gerado pelo trabalho criativo.
– Contexto brasileiro, observando a relação entre crescimento econômico do ecossistema, ausência de ocupação específica no MEI, debates recentes sobre regulamentação e condições concretas de renda e trabalho, com apoio de reportagens do Poder360.
Limitações
Este estudo apresenta as seguintes limitações:
– Dependência de fontes secundárias
Não foram realizadas entrevistas, grupos focais ou coleta primária de dados. As conclusões dependem da qualidade, da transparência e da abrangência das fontes disponíveis.
– Heterogeneidade das definições
O termo “criador” abrange realidades muito distintas, desde quem publica conteúdo sem objetivo de monetização até quem gerencia empresas de mídia e equipes inteiras. As pesquisas também variam quanto ao recorte (apenas influenciadores, apenas criadores de vídeo, apenas quem monetiza etc.), o que impede generalizações amplas.
– Rapidez de transformação do campo
A economia dos criadores muda em ritmo acelerado, com lançamento de novos produtos, alterações de políticas de plataformas e surgimento de novas fontes de receita. Dados coletados em determinado ano podem não refletir o cenário em períodos seguintes.
– Ausência de séries longas no Brasil
Embora existam pesquisas setoriais brasileiras recorrentes, ainda não há séries históricas longas e padronizadas que permitam acompanhar a evolução da renda, do emprego e das condições de trabalho dos criadores ao longo do tempo com a mesma regularidade observada em outros setores.
Uso das fontes no corpo do texto
No desenvolvimento do estudo, as fontes são citadas de forma a:
– Distinguir claramente dados brasileiros de dados globais.
– Identificar a origem de cada estimativa (por exemplo, “segundo a pesquisa Creators & Negócios 2024” ou “de acordo com o NeoReach Creator Earnings Report 2025”).
– Evitar a apresentação de números isolados como verdades absolutas, preferindo formulações que indiquem padrão recorrente entre diferentes estudos (por exemplo, “as pesquisas indicam concentração de renda na base da pirâmide”).
Essa opção metodológica visa oferecer um panorama fundamentado e crítico da economia dos criadores, sem incorrer em generalizações indevidas ou em uso acrítico de dados de mercado.
Nota metodológica
Este estudo é uma revisão analítica baseada em literatura acadêmica, relatórios institucionais, dados públicos e documentos setoriais. Os dados econômicos não são diretamente comparáveis, pois variam quanto ao período, à amostra, à definição de criador e ao escopo da atividade analisada. Relatórios produzidos ou financiados por plataformas foram utilizados como fontes institucionais e são apresentados com a indicação de sua origem. Afirmações sobre renda, saúde mental, regulamentação e condições de trabalho devem ser interpretadas de acordo com as limitações metodológicas de cada fonte.